O tresvário de Sophia (parte III)  escrito em quinta 09 outubro 2008 21:09

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                                                         III

  Eram duas mariposas. Uma, pousada sobre um galho seco. Tudo era aparentemente claro e vivo, exceto a mariposa de asas secas e aquele galho morto em que pousava. No entanto, pequeno encanto, era imenso o canto em que ela descansava, sem ser atormentada nem mesmo por uma brisa, uma vez que não chamava atenção alguma para si. A segunda, pousada sobre sua testa, embora percebesse apenas a sombra das finas patas sobre seus olhos. Movia-se em círculos como que se ajeitando para repousar. E assim realmente foi o que aconteceu: parou, ( fitando os olhos da moça) e fincou-lhe, o que sentindo parecia ser, um ferrão. Aquilo então lhe bastava, oh  sim, era ainda melhor que o maldito ópio. Os olhos retorciam, mas via as coisas a sua volta com uma nitidez nunca antes provada. “Agora sim, agora sim” repetia a mente ao vazio... “agora sim”.

Um braço apoiou-a e levantou grosseiramente, e quando se percebeu em pé, não era tarde para o equilíbrio... Curvou-se para frente e recompôs-se. “Dê três passos, Sophia” disse a voz conhecida do velho amigo.

 “É efeito da mariposa?”  perguntou “Não sei o que vê, Sophia, mas se esta falando da queda, creio que não”. Em uma quantidade de tempo incontável – não por ser muito ou pouco, mas por não ter consciência para contá-lo – Os dois viram-se de joelhos num campo vasto de flores com cheiro de álcool. Percebeu um caminho de liquido denso e violáceo, borbulhante, recém-fervido. “Olhe, além disso, um pouco a  frente” disse o companheiro de viajem. “Sim, o que é aquilo retraído no canto?” perguntou. “é mais alguém que precisa conhecer, e que esta reclamando que lhe falta”. Engatinhando, como um animal pronto para a defesa, aproximou-se do ser arroxeado que derramava o liquido conforme se arrastava. “Quem é que deixa a sombra a me esconder?” perguntou a criatura “Alguém que deseja lhe conhecer”. A criatura destapou os olhos (que, como vitrais, coloriam o vão que ficava acima do campo) e fixou-se nela. “Sim, bem quem esperava, por favor, aconchegue-se, -limpando com as mãos um pouco do lodo- sinta-se bem ao meu lado” sorriu e mostrou seus dentes púrpuros dentro da boca seca. “Com quem falo agora?” perguntou Sophia, fissurada com a  magnitude grotesca da criatura. “Ora, menina, sou aquilo que mais sente falta quando melhor esta, a sua consciência, claro.”  “sim” sorriu Sophia “com frutífera beleza, quem mais haveria de ser”. “Porque foi embora quando lhe desejava ainda mais por perto?” “Bem, entra ai cabe a velha frase que todos conhecem ( criada por mim quando me aproveitava do pensamento útil das pessoas) : não se pode ter tudo que deseja. Ou hora tem a loucura, hora a insanidade, ou uma delas eternamente.Se ficar sem as duas, estará morta! Não existe vida sem consciência ou loucura, menina”.  Percebo, mas acho que me sinto tonta agora” “é efeito da mariposa. Bem, deixe me acolher meu canto frio, enquanto não te decides- a mariposa é prova de que ainda não se decidiu- e como disse, esta minha conversa contigo foi apenas proveito dos seus pequenos minutos de consciência: tua loucura ainda te cerca. Vá bem, e espero que nos encontremos de novo.”  A criatura tornou-se rija bem a sua frente, e nada podia fazer, mesmo que quisesse, ele não mais a atenderia, por enquanto. Chegara hora de mais algum tempo de caminhada até encontrar mais um espaço vivo de sua mente.                     

 

CONTINUA


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O tresvário de Sophia ( CAPÍTULO II )  escrito em quinta 18 setembro 2008 20:33

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II

      Não sabia se conseguia raciocinar muito bem, mas acreditava ser mais de 1h da manhã. Porém, a luz que brilhava bem a frente de seus olhos parecia vermelha demais, até mesmo para um crepúsculo. Quando a vertigem pareceu menos nociva, levantou-se, afim de reconhecer as coisas a sua volta. Achou, por um instante, que ainda estava sob efeito de algo desconhecido.

“Talvez tenham me envenenado – pensava-  “mas não me pareço morta”.

    Esfregou os escuros olhos ( que pareciam ainda muito mais negros depois de uma alta dose entorpecentes) e via-se num vão rubro-alaranjado, como se uma labareda a tivesse engolido, mas a sensação era fria demais para o ser.

“ Vou deitar-me para que passe, é só mais uma, mais uma, alucinação.” gemeu. Mas antes que pudesse, sentiu algo mover-se atrás dela, e ainda que o medo aumentasse, convertendo-se em pavor, mais barulhos ouvia, mas não seria capaz de se virar. Um gemido doido e doentio ela ouviu ao fundo.Não, ela não se viraria nem agora. Um gemido um pouco mais alto, e outro, e outro, e o ultimo sussurrado, porém muito mais sofrido que todos os outros antes.

-Ajude-me- algo gemia, rangendo os dentes - Apenas você poderia.

  “Não, eu não vou me virar” repetia ela, estranhando que não sentia o coração bater forte, saltando do peito, nem as veias pulsarem mais rápido, pelo pânico, mas podia ouvi-los aguçadamente. Percebeu então, num ato ainda maior de pânico, que suas mãos estavam molhadas por algum tipo de liquido parecido com água, porem, ligeiramente mais denso.

- Não, não se amedronte, por favor - dizia a voz apavorada, tanto quanto a garota que quase se sentiu desintegrar de pavor - Vire-se - disse a voz, empurrado para trás com uma mão ensopada, furta-cor.

Um súbito de terror invadiu-a, como se fosse enterrá-la em tal pavor. “ estou alucinada, estou alucinada” repetia, mas o seu problema não desaparecia.

 - Olhe para mim, e me encare de uma vez menina suja – a voz mudou por completo seu tom, que não parecia menos insano, apenas mais seguro.

- Quem és? Não podes existir...por que falo assim?...não,não.. você não existe, não esta aqui, nem eu estou.. quem és? Quem és?

 A voz subia e descia, dando um ar de extremo descontrole.

- Sou a parte de ti que te trouxeste até aqui, e que te acompanhará durante todo o percurso.. Eu te controlo, mais que Tu me controlas!

 Sophia parou, marmorizada enquanto pensava “ por que estou falando com isso, nem sei se sequer existe!!” Mas o seu pensamento, ecoava sobre a imensidão vermelha, formando ecos.

- Existo, e sem mim não estarias aqui, me formou! Agora me dê jeito! Sou capaz de deixar-te aqui, trancada em insanidade eternamente se não controlar-te!

 - quem és tu, que não me deixa em paz?

- Não lhe deixo, mas porque tu não queres que eu vá. Sou tua insanidade, a parte mais confusa e completa de ti, o único espaço da tua mente que tem toda a atenção, todo capricho

- como diz? Que queres? Onde estou?

- quero o que você quer, e esta, é a resposta que deves encontrar aqui, logo  explico...

    Mas antes que a criatura lhe explicasse, ela mesma percebeu. O lugar, asqueroso já era conhecido. De alguma forma, era. Era tão parte dela quanto os olhos que doíam à luz, os cabelos mal-cheirosos e os ossos que apareciam sob a pele, quase sob a roupa.

Sim, aquele era o esconderijo mental que imaginara a muito tempo... Talvez velado à muito em seu subconsciente. Aquele ser, que fitava-lhe os olhos, agora sabia, era o auto-retrato de sua própria loucura.

- Sei o que é.

- Sabemos que sabe. Depois da porta cerúlea, depois daquela porta.

 Ela só não sabia, o que lhe esperava dali em diante.

 

(CONTINUA)

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O tresvário de Sophia ( parte I )  escrito em segunda 08 setembro 2008 22:58

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Mais um anoitecer nos aposentos do antigo quarto aquoso, no qual inclusive, ela passava a maior parte do seu tempo. Abre a janela à espera que um sopro, ainda que sutil, arranque o odor molhado que escorre das paredes ( essa espécie de cheiro sempre a incomodou, por tê-lo sempre próximo ao nariz, que sente claramente depois de alguns choros, a pele mofada). Apoiou-se à beira da janela, e sacou do bolso seu maço de cigarros novos, o inicio do ritual . O momento mais esperado do dia: abrir o fino plástico e sentir o cheiro da nicotina nova e densa espalhar-se próximo ao rosto, em direção às narinas. Soltou os cabelos imundos ( claro, evitava lavá-los pois seria desagradável passar o dia com os cabelos úmidos, afinal o cheiro permanece ali por muito tempo) que caíram pesados, como uma cortina sobre as costas. Tirou os sapatos e deitou-se na cama. Esticou ligeiramente os braços e alcançou a garrafa de líquido esverdeado que tanto a esperou durante todo o dia. “Eu estou de volta minha amada”, disse Sophia com uma voz tão tremula que chegou a tornar-se rouca. Ao lado, o pequeno frasco de láudano, que ela precisou mexer-se um pouco mais para alcançá-lo. O copo, o cubo de açúcar... Tudo mediamente premeditado, para se tornar menos demorado, e a ansiedade menos insuportável. O isqueiro... Ahhh, o fogo. Amara tanto o fogo quanto detestara a umidade... Não havia nada no mundo mais seco que o fogo, que a secara e a aliviara tantas vezes de sua aquafobia, e talvez por isso lhe agradasse tanto... Mas, aquela chama, não era como qualquer outra. E ela bem sabia disso. O odor apossou-se do quarto, ( enfim saíra o cheiro detestável de umidade). Bem, seu ato é dedutível. Os músculos enrijeceram tal qual nunca havia antes, os olhos viraram. A viagem começara, mas, bem, de alguma forma, ela sabia que algo havia modificado. O prazer que sentia o orgasmo conseguinte, o declínio da tensão... Tudo parecia ainda mais intenso. Os olhos contorciam, as mãos frias trocavam espasmos que passavam como uma corrente elétrica por todo o corpo o coração doía, mas mais que ele, seu cérebro doía, a massa parecia desfazer-se. Os joelhos se chocavam com imensa força, e nada parecia controlável, alcançável, nem mesmo a morte. Não, aquilo ainda não se tratava da morte, era quente demais para ser... Não, não era a morte... era algo ainda muito, além, e ainda mais distante.

 

( CONTINUA)

 

 

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Epítome sobre a infelicidade do cumprimento .  escrito em segunda 08 setembro 2008 21:14

Sinto meu tom de transparência ao demonstrar toda a minha quietude como simples reflexo deste prazer que sinto ao estar dentro de mim mesmo, sem ser incomodada.. Este meu bem-estar calado me faz compreender ainda menos o ato repugnante do simples que diário comprimento. Sim, é isso mesmo, o ato de virar-se a uma pessoa e cumprimentar-lhe, com palavras, olhares, aceno, gesto. Sim! o cumprimento! Detesto cumprimentar as pessoas, exclusivamente quando me sinto obrigada a cumprimentar primeiro, no ato ( muitas vezes inutil) de tentar fazer com que a pessoa fale menos... Outro lado positivo de cumprimentar primeiro é que a fala da primeira pessoa é sempre mais curta... Se bem que, dependendo da pessoa, é melhor deixá-la cumprir a parte mais curta do diálogo, pra que não tenhamos que suportar mais de  três ou quatro palavras da voz sempre mecânizada, saída do saco falso cheio de clichês monótonos e intediantes ( não como o clichê do amor, citado antes, mas um terrivel clichê).

Enfim, O que é menos chato? ler o roteiro ou ter que interpretá-lo?? ouvir ou dizer as babozeiras premeditas taxadas como educação ou ética???

Bem, há dias em que não digo nada, pra não ser obrigada a ouvir .


Vamos criar uma forma mais sutil e muito mais educada ( já que tocamos na etiqueta) de cumprimentar as pessoas: Cumprimente com a cabeça, e, ao menos que não receba um sinal de autorização, mantenha a boca calada!!!! ;)

 

( Isso não é pra todos, só para aquelas tipicas regras escritas no cosmo sobre boa educação e ética no ambente de trabalho!!! ninguem gosta de ninguem num ambiente de trabalho mesmo! apoio a queda da falsidade!!!!!!)

 

 

 

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Tresvário .  escrito em quarta 03 setembro 2008 21:08

Passei esta alvorada pousada sobre a janela do quarto escuro. O fulgor da lua parecia repousar sobre a pele, penetrar sob os poros, umedecer o musculo, cintilar os ossos. Meus olhos ocultos sob as palpebras sequer movimentavam-se, a boca secava, o ouvido aguçara... havia entrado no lado mais profundo e sigiloso do meu cérebro, o canto obscuro... o quarto ébano, a zona proibida do subconsciente. Meu corpo, (a parte externa e insignificante dele) tiritava à sombra do pavor, da solidão, sentia-o sofrer por meu estado de transe, desligado dele, que esfriava... Eu, distante, vagando vivamente entre os mais impenetráveis espaços da minha mente, contorcia idéias, clareava a insanidade enclausurada, que pendia em uma corrente luminosa. Minha consciência, fraca e esqueletica, gemia em todos os cantos, e hora gritava, quando conseguia. De certa forma, ela ainda iluminava todo o espaço, quando assim desejava. Berrava, lamentava o vazio que construira. Mas antes que pudesse, o céu, do lado de fora, tornavasse escarlate,  invocando para que voltasse. Amanhecia lentamente e o quarto desfrutava uma cor doce, um rubro voraz e audacioso. E bem a tempo, antes que a loucura me tomasse... Mas não a tempo de me salvar do tão amado e viciante delírio que me conssome.

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